BOX CULTURAL: Tintim no cinema VS Tintim nos quadrinhos
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Nunca tive vergonha de assumir que sou jornalista por causa do Tintim. Os quadrinhos escritos e desenhados por Hergé, pseudônimo do belga Georges Prosper Remi, contavam as histórias com doses certeiras de aventura e mistério pelas quais o jovem repórter passava. Improváveis, perigosas e que definitivamente não devem ser seguidas como exemplo para profissional nenhum, mas sim uma inspiração. Foi com esta expectativa que fui assistir ao recém lançado As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne.
Altas expectativas e aquele pensamento de praxe, que sempre nos atormenta em qualquer adaptação cinematográfica de livro ou quadrinho: o original é sempre melhor. Espera-se demais do cinema, é uma mídia mais fantástica, com maiores possibilidades, ainda mais considerando a técnica de captura de movimento utilizada por Steven Spielberg e Peter Jackson, diretor e produtor do filme. Para se ter uma ideia do potencial visual, é a mesma técnica utilizada em Avatar.
Isso significa que o visual do filme As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne é simplesmente extraordinário. Spielberg quis e conseguiu ser completamente fiel às características físicas dos personagens, inclusive os traços caricatos criados por Hergé. São iguais aos desenhos dos quadrinhos, só que assombrosamente reais: os olhos têm vida, os cabelos se mexem, é possível ver os poros e os pelos faciais, a saliva voando fora da boca nos momentos de gritaria. Simplesmente impecável.

O impacto visual é logo substituído pela intrigante história do Licorne, um navio de guerra que afundou nos mares com um grande tesouro a bordo, que é logo substituída por uma overdose de aventura. Spielberg é considerado o mestre da aventura em Hollywood, mas na ânsia de tornar Tintim grandioso demais, esqueceu-se de uma das principais facetas das tramas de Hergé: o mistério.
Existe um desequilíbrio perceptível e cansativo entre aventura e mistério, coisa que não acontece nos geniais quadrinhos do belga. O filme diverte, mas cansa. Somos bombardeados o tempo inteiro por uma frenética sequência de, digamos, uma hora e meia de explosões, perseguições, lutas e tiroteios, tudo isso projetado para fora da tela com os fastidiosos recursos do 3D.

A história, onde a herança de Hergé deveria se sobressair, ficou em segundo plano e foi picotada a ponto do filme ser baseado em três livros diferentes (O Segredo do Licorne, O Tesouro de Rackham o Terrível e O Caranguejo das Tenazes de Ouro) e o Tintim não resolver um caso sequer. A personalidade do repórter continua a mesma, mas suas capacidades mentais parecem limitadas, não são aproveitadas. Ele não é tão capaz de desvendar os mistérios quanto aquele Tintim de nanquim.
Talvez a culpa seja minha, que ainda não me dei conta de que o cinema, principalmente Hollywood, é mesmo uma forma despretensiosa de lazer. Nos quadrinhos, Hergé conseguiu construir sua obra embasada e contextualizada em pesquisas meticulosas que realizou sobre fatos históricos e políticos do século 20, mas isso sempre fica no papel. O comparativo do título é injusto e deve ser por isso que nenhum filme supera as expectativas de quem espera algo semelhante à obra que o inspirou. No fim, podemos dizer que este é um verdadeiro exemplo de Sessão da Tarde, diverte pra caramba, mas trata-se de “um repórter e seu cãozinho que vão se meter em altas confusões”.
Oi, Rafael.
Seu texto é interessante, mas acho que peca em alguns pontos. No fim, é claro, é a sua opinião e essa tem sempre de ser soberana a seus olhos.
Ainda assim, me fica a impressão que não vimos o mesmo filme. Li e reli Tintim minha infância e adolescência todas – e ocasionalmente agora, mesmo adulto. Não fiquei em momento algum decepcionado com o filme, ou acreditando que ele tem mais lugar na sessão da tarde do que em outro lugar mais nobre – embora pessoalmente ache que na sessão da tarde, pelo menos na que eu assistia quando garoto, passaram muitos filmes memoráveis, como ‘Curtindo a vida adoidado’, pra ficar no mais óbvio.
Você fala da falta de mistério no filme. Mas até que ponto essa falta não existe apenas porque você já sabe o fim da história? Queira ou não, embora seja um misturadão de três livros, quem já leu os três, sabe o que acontece no fim. Mesmo assim, há um vilão novo que, apesar de um pouco óbvio, satisfaz o mistério ‘inédito’ para o filme – visto que ele é invenção pura de Spielberg.
A ação é exagerada? Não concordo. Acho que há ação na medida no filme. É, inclusive, um prazer ver encenadas, se é que um personagem gerado por computador pode ‘atuar’, algumas passagens que ficavam para a imaginação na leitura dos livros e outras completamente novas, mas sempre com uma ou outra referência que quem leu Tintim tantas vezes como eu, consegue reconhecer e apreciar, ainda que por vezes bastante sutis (ou por outras nem tão sutis).
O tanque carregando uma parte de um prédio, o nome do uísque preferido do capitão Haddock, as primeiras páginas enquadradas no apartamento de Tintim com referência a outras aventuras. Algumas falas transpostas literalmente à tela, a abertura com a ‘participação especial’ de Hergé… Tudo isso faz do filme, para mim, uma grande aventura semi-inédita de Tintim e, mais que isso, uma grande homenagem a esse personagem. O que até ajuda a esquecer o que eu acho ser a maior falha do filme, que você nem menciona: a transposição de Tintim da Bélgica/França para a Inglaterra/EUA. As transformações de Dupond/t em Thomson/Thompson, de Milou em Snowy e de Moulinsart em Moulinspeck, entre outras, são as que mais desagradam no filme. Mas, como é apenas a tradução de alguns nomes, não faz assim tanta diferença no conjunto geral da obra.
Enfim, como disse, texto interessante. E bom ver que mais gente acabou se tornando jornalista por influência do Tintim!
Abs,
JS