Sorria, você está ficando ultrapassado
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Ao pensar no tema desta coluna decidi falar sobre a Kodak. A empresa está no início da história da popularização da fotografia que vemos hoje e pediu proteção contra falência. Aparece ainda embolada em uma série de erros estratégicos, como a troca do comandante da reestruturação da companhia, algo considerado temerário e inédito por especialistas. Isso sem contar o fato de ser acusada de ter ocultado números desfavoráveis (entenda mais do caso aqui). Há dúvidas se a gigante conseguirá sobreviver, apesar da sua ainda importância inegável, basta ver o nome do teatro onde acontece o Oscar.
No dia de escrever esta coluna, achei no Youtube o vídeo que está logo abaixo. No início está o aviso, é uma obra de imaginação, o produto não existe (conheço fotógrafos que não atentaram a isso e queriam já saber onde comprar). Mas já existem kits de lentes para iPhone (veja aqui) e não duvido ver esse protótipo virar realidade hora ou outra.
Enfim, a conclusão óbvia ao ligar uma coisa a outra seria me unir ao coro segundo o qual a Kodak foi morta pela tecnologia. Acho isso reducionista, a empresa perdeu sim o bonde da história (alguém ainda usa essa imagem? Hoje se perde o o quê da história?). Foi suplantada, mas sucumbiu a um caminho criado por ela mesma.
A Eastman Co., fundada em 1880, lançou em 1888 a primeira câmera de filme voltada para amadores, a Kodak n1. Com o slogan “você aperta o botão, nós fazemos o resto”, a maravilha tecnológica oferecia uma caixa portátil, facilmente operável. Depois de terminado o uso, o consumidor entregava o aparelho em uma loja e recebia tempos depois as fotografias em papel. Interface amigável, usabilidade, redução de custo e personalização. Não se usava nenhum desses termos marqueteiros, mas era isso que a Kodak entregava.
Até então, fotografias eram feitas com placas de vidro ou metal, passando por processos complicados e custosos. Na primeira guerra registrada fotograficamente, a da Criméia, ocorrida entre 1854 e 1855, os repórteres-fotográficos da época, se é que dá para chamá-los assim, andavam com uma carroça. Isso porque os equipamentos eram enormes e pesados e o laboratório tinha de seguir com eles, pois se as chapas não fossem reveladas logo se perderiam.
Quando você vir um retrato do final do século XIX, com as famílias sentadas, ou os homens orgulhosos encostados em móveis imponentes, saiba que mais que um estilo de época aquilo representa um fator técnico. As formas de captação de imagem eram pouco sensíveis à época, e as pessoas tinham de ser escoradas para não saírem tremidas. Sem contar a quantidade de retoques necessária pós-captação.
Eastman abriu as portas para o que se conheceu como fotografia de guerra nos anos 30 e 40 do século XX, toda a fotografia moderna e do registro amador e cotidiano feito por todos e qualquer um. Isso quando conseguiu colocar emulsão de gelatina em um celuloide fino o bastante para ser enrolado em uma pequena bobina (se você tem menos de 20 anos talvez tenha de procurar o significado disso no Google, assim como teria de fazer com LP se não tivesse ocorrido o renascimento do bolachão).
Posso ser apedrejado por esta comparação, mas para resumir, Eastman foi o Steve Jobs da sua época. Inventou uma futilidade de consumo que mudou a maneira de as pessoas verem o mundo. Claro, sem Internet e o marketing do final dos séculos XX e início do XXI. Para constar, a Kodak foi a primeira a fazer experiências e criar câmeras digitais, no final dos anos 60. A primeira profissional digital que vi na vida era uma espécie de híbrido, um corpo de Canon 35mm acoplado a um back digital da Kodak. Tinha a incrível resolução de 1Mpixel, se não me engano.
Portanto, o fim da Kodak, se ele vier, não é o término de uma era ou o final de um período mágico e saudosista… isso é blábláblá. A morte da Kodak é a reafirmação do que ela mesma iniciou. Entre 1888 e 2012 o mundo mudou, evoluindo. Inclusive o tempo se alterou. Se a empresa de Eastman levou quase um século e meio para ser engolida pelo que criou, nada garante não serem necessário 12 anos e meio para o gênio de hoje virar a notícia de ontem de amanhã… E com uma diferença importante: bem menos gente vai sentir faltar e se achar órfão.
* Rodrigo Dionisio é fotografo, jornalista e vice-versa, sempre preferiu filmes da Fuji e Ilford, sendo que guarda alguns na geladeira até hoje, e é sócio-fundador da FramePhoto (www.framephoto.com.br)
Belo artigo, Rodrigo Dionísio. Faz tempo que não linha um texto assim. Reflexivo, com dados claros, a dose certa de humor, sem emocionalismos baratos e fazendo um retrato e uma análise fiéis ao acontecimento. Parabéns.