Us mano, as mina e as marca

Postado por Rodrigo Dionisio, quarta-feira 16 dezembro 2009 as 9:18

A capa da Rolling Stone é Mano Brown. Como o próprio texto da revista diz, ele é o sonho de consumo de 9 entre 10 jornalistas. Mas qual é o fascínio que o músico exerce entre os colegas das Redações? A resposta racional, sem trocadilhos, está ligada ao fenômeno representado pelos Racionais MCs e seu líder, um dos poucos marcos verdadeiros da combalida música nacional. Também conta a aversão de Brown e do grupo a entrevistas. Vale para o currículo estar diante deles, e há casos extremos, como uma capa da Carta Capital há alguns anos, que estampava o cantor e compositor, relatando exatamente a impossibilidade de falar com ele (entenda, uma capa de revista com um personagem o qual o veículo não ouviu; a própria Rolling Stone repetiu este expediente com Ronaldo, “o Fenômeno”, neste ano).

Entretanto eu acredito haver algo a mais nessa atração quase unânime, beirando o fetiche. Brown se tornou essa espécie de ícone de entrevistado por ativar um módulo na mente de todo jornalista: o do controle. Não é possível domina-lo, simplesmente pelo fato de ele não parecer (e imagino ser mesmo isso só uma aparência) se importar com o dito ou não dito a seu respeito. No discurso, pouco importa a capa da Ilustrada, a página da Veja, o bloco do Profissão Repórter. Se isso gera o fetiche, ao mesmo tempo causa estranhamento. Todos falam de Brown como se o conhecessem, como se andassem lado a lado com ele na quebrada. Quando ele se dá ao luxo de ser entrevistado, a atitude é reverente, como no Roda Viva, quando ele próprio, irônico, questionou os jornalistas por não o terem apertado o suficiente (”Tô achando suave, tá suave, não sei porque, mano…”). Citando novamente a Rolling Stone, o tom da reportagem informa que Brown mudou. Só que esta mudança, para os ouvidos mais atentos, vem desde Nada Como um Dia Após o Outro Dia, quando a crítica dedo na cara dava lugar a letras confessionais.

Tentando fazer um paralelo torto, a estratégia de comunicação do líder dos Racionais é um case para qualquer marca ou empresa. Tornar-se sonho de consumo para jornalistas passa por falar quando se tem o que dizer e com contundência. Claro, nenhuma marca poderia viver fazendo comunicação de quatro em quatro anos, mas a superexposição banaliza. Estar acessível é diferente de ser cotidiano, no sentido de corriqueiro; ter força e peso em uma negociação com veículo é oferecer conteúdo real (ou ao menos parecer te-lo, no caso de Brown). Uma boa estratégia de comunicação, portanto, envolve também saber a hora de aparecer, e de preferência quando o veículo não espera, quebrando sazonalidades e paradigmas.

Difícil, talvez impossível. Provavelmente de tão torto este paralelo entre um dos principais (se não o principal) fenômeno individual da periferia e o mundo da comunicação corporativa seja indevido. Mas também acredito que muito do que aprendemos na nossa profissão vem de lugares pouco óbvios. E creio que vale sim um olhar para essa personalidade brasileira que está entre as poucas que fala para o veículo que quer, para quem quer e quando quer, mas finge não estar nem aí para isso.


1 Comentário »

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