All in 02

Para quem não está habituado com linguagem de pôquer, all in é um movimento no qual você aposta todas as suas fichas de uma vez. Isso pode acontecer em duas situações. Quando você sente ter o melhor jogo da rodada, e quer que seus adversários paguem a aposta, fazendo você, no mínimo, dobrar suas fichas. A outra opção, mais arriscada, é ir all in sem ter nada, mas acreditando que seus oponentes vão desistir. O trabalho com contas e temas arriscados passa por esse mesmo raciocínio.
Divulgar pôquer no Brasil inclui por vezes essas duas sensações: a de ter o jogo mais forte e a de ter de arriscar, acreditando que o outro vai recuar perante seu argumento. Segundo uma análise global feita pelo PR mundial de PokerStars, há três faixas de mercado de mídia para o pôquer. Na primeira, há pouco conhecimento, nenhuma mídia especializada, veículos de esporte ignoram a prática e os torneios são o principal atrativo, pela curiosidade e personagens presentes. A segunda fatia mostra o surgimento de mídia dedicada ao pôquer, a necessidade de criar ações diferenciadas, como a presença de celebridades nos torneios, e há o início do interesse por parte da mídia esportiva.
Um mercado de mídia maduro para o pôquer (talvez só o norte-americano seja hoje), na terceira etapa de evolução portanto, tem a modalidade entendida e coberta pela imprensa esportiva, veículos especializados consolidados, e as demais mídias só se interessam pelo que for mesmo excepcional, como a vitória de Joe Cada este ano no WSOP, tornando-se o mais jovem campeão do principal evento do mundo do esporte. O Brasil, hoje, ainda está na primeira etapa, com algumas pitadas da segunda. Temos duas revistas especializadas em pôquer (Flop e Cardplayer), sem contar alguns sites e blogs. Por outro lado, quem se interessa pelo assunto normalmente são veículos de comportamento e estilo de vida. A mídia esportiva, com raríssimas exceções, simplesmente entende que pôquer não é esporte (para os editores desses veículos, algo além de futebol é?).
E nesse nó de mercado entra a questão do nosso all in. O Brasil é um dos países que mais crescem no pôquer mundial. Neste torneio no qual estou, com uma inscrição de dez mil dólares, há pelo menos 30 brasileiros jogando. Há um movimento, ainda subterrâneo, de interesse pela prática. Mas ainda assim a modalidade é vista com certa desconfiança por alguns veículos, os quais acham pôquer “nichado” demais. Resta para a assessoria apostar tudo, sabendo de suas forças e fraquezas. Boa parte de nossa cobertura mostrou o pôquer como uma curiosidade, o que necessariamente não é ruim. Isso permite levar para pessoas as quais nunca souberam da existência deste mundo um pouco de suas regras e estilo. Aos poucos não ouço mais de colegas de imprensa a pergunta: “mas isso não é ilegal?”, e há jornalistas de fora das especializadas entendendo regras, conhecendo os astros do esporte e participando de torneios nacionais. Cria-se uma aura de normalidade para os eventos.
Por outro lado, arriscamos expor a preconceitos e visões equivocadas toda uma construção de imagem até agora bem-sucedida. Em alguns casos abrimos a porta para receber críticas, esperando ao menos o contraponto de um outro lado (seria bem-vinda uma pauta séria, crítica a respeito do pôquer, que ouvisse todos os lados envolvidos em uma sessão de cotidiano ou política de um grande veículo). É um longo e desafiador caminho, estamos ganhando as apostas até aqui e não estamos sozinhos (outros países como México e Argentina vivem situações semelhantes).
A foto no início do texto é da janela do meu quarto. Um belo local. Volto amanhã, se tudo der certo.
