A UM CLIQUE DO PERIGO
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XComunicação Entrevista – por Fabio Chiorino
Talvez nada tenha crescido tanto nos últimos cinco anos quanto os crimes virtuais. O número é impactante: 6.513% – 2004 a 2009. O dado é do Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil. Uma porcentagem que se refere apenas às queixas feitas por administradores de redes. Ou seja, o total de fraudes pode ser ainda maior.
Entre os principais golpes está o roubo de senhas. Emails e sites falsos são usados para atrair as vítimas. Sem perceber, o usuário clica em algum link e instala um programa que registra tudo o que é digitado no teclado. Simultaneamente, essas informações são transmitidas para o email dos criminosos. Para tentar entender como são feitas as investigações e até que ponto a conduta do usuário pode influenciar nos riscos, o blog da XComunicação entrevistou Eduardo Pinheiro Monteiro, especialista em crimes virtuais, com experiência de 9 anos na Chefia de Investigação do Núcleo de Repressão aos Crimes Eletrônicos (NURECCEL), da Polícia Civil do Espírito Santo.
Durante o papo, o especialista alerta para novidades que surgem nas redes sociais e logo ganham muitos adeptos. “Criminosos estão utilizando o Foursquare ou até mesmo sites de relacionamentos para buscar informações sobre locais de residência, trabalho e passeio dos internautas”, aponta. Eduardo também é articulista do jornal “A Tribuna” (ES) e autor do projeto “Internet Segura para Adolescentes”, pelo qual já ministrou palestras para mais de 100 mil adolescentes e 2 mil pais. Leia a seguir a entrevista completa
XComunicação – Quais são as condutas fundamentais que o internauta deve adotar para evitar ser vítima de crimes virtuais?
Eduardo Monteiro – Sempre recomendamos aos internautas que tenham muita cautela em qualquer que seja o ambiente virtual que ele esteja conectado. Em relação à segurança pessoal do internauta e de sua família, recomendamos não adicionar em suas listas de contatos pessoas estranhas, bem como evitar colocar dados pessoais e fotografias em portais de relacionamentos, blogs e outros ambientes virtuais. Já em relação a fraudes e golpes virtuais, orientamos os internautas a não realizarem compras em sites desconhecidos, nem comprar de sites de leilão virtual, efetuando transações comerciais ou financeiras somente de um computador que tenha certeza que não esteja infectado com vírus ou outros tipos de códigos maliciosos.
XComunicação – Recentemente, o Foursquare, ferramenta que identifica onde a pessoa está, está sendo usado para quadrilhas planejarem assaltos. Até que ponto compartilhar informações se torna uma ameaça para as pessoas?
Eduardo Monteiro – Infelizmente a grande maioria dos internautas não se deu conta que a Internet é um ambiente público e o excesso de informações pessoais pode colocar em risco a segurança física dos mesmos. Criminosos estão utilizando ferramentas de localização como o Foursquare ou até mesmo sites de relacionamentos para buscar informações sobre locais de residência, trabalho e passeio dos internautas. E desta forma acabam facilitando a vida dos criminosos que planejam seqüestros ou vingança.
XComunicação – O site de relacionamentos Orkut é alvo de cerca de 90% das denúncias de pedofilia na Internet. Como funciona o acordo assinado pelo Ministério Público Federal em São Paulo e a Google Brasil para combater esse tipo de crime?
Eduardo Monteiro – O termo de ajustamento de conduta assinado entre o Ministério Público Federal e a empresa Google (proprietária do Orkut) prevê a possibilidade de, mediante ordem judicial, o aparato de repressão e combate à pedofilia ter acesso irrestrito a perfis e álbuns de fotografias suspeitos de armazenar imagens, vídeos ou fotografias de crianças e adolescentes em situação de nudez ou pornográficas. Pelo acordo, o Google se compromete também a cumprir de forma integral a legislação brasileira no que se refere a crimes cibernéticos e a cumprir no máximo em 15 dias as solicitações que receber da justiça brasileira.
XComunicação – Estão sendo criadas delegacias estaduais especializadas em crimes virtuais. Quais as principais diferenças de atuação dessas instâncias em comparação com a justiça comum?
Eduardo Monteiro – A delegacias especializadas em repressão aos crimes virtuais possuem policiais treinados e qualificados especificamente para atuação em investigações de crimes informáticos, seja ele praticado em computadores isolados ou computadores pertencentes a redes de computadores, tal como a maior delas, a Internet.
Já as delegacias não especializadas, atuam em todos os tipos de crimes, sejam eles crimes contra a vida, o patrimônio, a administração pública. Desta forma, em casos em que o crime exija uma especialização maior para a sua apuração, os respectivos procedimentos são encaminhados para as delegacias especializadas, podendo ser a delegacia Patrimonial, a delegacia de Homicídios, a delegacia de Furtos de Veículos, ou se for o caso, a delegacia de Crimes Virtuais.
XComunicação – As senhas sempre são as portas de entrada para os criminosos virtuais? Quais as falhas de segurança mais recorrentes entre os usuários nesse sentido?
Eduardo Monteiro – Os usuários cometem vários descuidos em relação às suas senhas. Entre eles podemos destacar usuários que criam a mesma senha para vários tipos de serviços: email, conta bancária, MSN, Orkut; também são milhares os usuários que criam senhas de fácil dedução, como nome de filhos, data de aniversário. Todavia, o inimigo número 1 das senhas são os códigos maliciosos que capturam as senhas dos usuários quando estes utilizam computadores contaminados com os mesmos, principalmente em computadores de lan-house, cybercafés, faculdades e qualquer outro computador de local público ou até mesmo da casa de um pseudoamigo.
XComunicação – Os bancos investem cada vez mais em tecnologias para aumentar a segurança dos seus clientes. O que ainda falta ser feito para evitar clonagem de cartões e roubos de senhas?
Eduardo Monteiro – Não é meramente uma questão de investir em tecnologia, o usuário precisa ser mais cauteloso ao acessar suas contas bancárias através da Internet, haja vista que por melhor que seja o sistema, se um internauta entra em um site clonado do seu banco e digita os dados da sua conta, sua senha, toda a tabela do seu cartão de senhas, não haverá sistema moderno e seguro que impeça que o autor do site clonado realize transações bancárias se passando pelo verdadeiro correntista. Portanto, é preciso conscientizar o usuário da existência de técnicas hackers que buscam capturar seus dados bancários para praticar esses tipos de fraudes.
XComunicação – Como os pais podem educar seus filhos sobre a navegação na internet? Monitorar os sites que os jovens usam é uma solução?
Eduardo Monteiro – Primeiramente os pais precisam procurar se informar cada vez mais da Internet e seus riscos, para ter condições de no dia-a-dia buscar manter sempre um diálogo aberto com seus filhos e conscientizá-los quanto aos riscos da Internet, sejam eles: o cyberbullying em portais de relacionamentos ou programas de troca de mensagens instantâneas; a exposição desnecessária e perigosa de dados pessoais e fotografias em portais de relacionamentos; bem como a pedofilia que ronda todos os ambientes frequentados por crianças e adolescentes.
Geralmente, o adolescente custa em acreditar e assimilar que ele pode vir a ter problemas com a Internet, haja vista que, para o adolescente, o computador a princípio trata-se de uma ferramenta inofensiva. Desta forma, o acompanhamento por parte dos pais dos sites visitados pelos filhos, dos amigos da lista de contatos e, em casos de comportamento suspeito, até mesmo o monitoramento das conversas dos adolescentes se fazem necessários quando se tem como objetivo proteger a integridade física e moral dos adolescentes e de sua família.
XComunicação – Afinal, com tantas ferramentas de rastreamento disponíveis, ainda é possível o anonimato na internet?
Eduardo Monteiro – Devemos primeiramente considerar três premissas: 1 – A Internet é uma rede de computadores formada por centenas de milhões de computadores de todas as partes do mundo; 2 – Essa rede de computadores é um ambiente público e a informação está trafegando livremente nessa teia sem termos o controle de onde essa informação está passando; 3 – Existem milhares, talvez milhões de pessoas mal intencionadas e na maioria das vezes especializadas em técnicas de rastreamento conectados na Internet, buscando descuidos ou falhas na segurança para atingirem seus objetivos.
Portanto, por mais no anonimato que a pessoa pretenda ficar, ou por melhor que seja a técnica utilizada para proteger suas informações, toda pessoa ou todo conteúdo que caia na “Infovia da informação” (Internet) sempre terá a possibilidade de parar nas mãos de criminosos virtuais.