Eu escrevi este texto apenas por diversão
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O tempo é escasso e o sucesso não pode tardar. Esta parece ser a premissa de um mundo que esqueceu como se faz algo apenas por prazer. Desperdício virou uma palavra corriqueira para rotular tudo o que é feito, mas não é aproveitado ou divulgado. Não existem mais livros escritos para não serem publicados, assim como não se compõem mais músicas que não sejam lançadas.
Quarenta anos depois do lançamento de LA Woman, do Doors, uma surpresa: uma música da banda nunca antes lançada virá na nova edição do álbum. Naquela época, compor era uma diversão. Não existia a obrigação de gravar tudo o que se criava, até porque nem tudo era ouro. Só o melhor ficava, o que a banda e o produtor mais gostavam. Isso não quer dizer que todas aquelas músicas que ficaram na gaveta, como a “nova” She Smells so Nice do Doors, foram um desperdício de esforços.
Devem existir centenas de outras músicas iguais a esta nas gavetas das casas de Ray Manzarek, Robby Krieger, John Densmore e, quem sabe, dos parentes do Jim Morrison. Isso para ficar apenas no Doors. É claro que todas as bandas têm as suas composições secretas ou até discos inteiros perdidos no meio do caminho por algum motivo nunca divulgado, mas facilmente previsível: compor estas músicas já foi o suficiente para eles crescerem como músicos, não era preciso ter alguém ouvindo, comprando ou compartilhando nas redes sociais.
O mesmo acontece com escritores e, pior ainda, blogueiros. Sim, estes últimos não “desperdiçam” uma só palavra; não deixam nada escapar da publicação. Escrever é um exercício e não necessariamente tudo o que se escreve é bom. Mesmo os maiores escritores do mundo têm os seus cadernos lotados de ideias soltas e contos que ficarão secretos até que, depois de muito tempo mortos, um familiar encontre os escritos e publique para ganhar algum dinheiro em cima do finado parente.
Jane Austen costumava escrever contos imitando (ou satirizando) o estilo de escritores que admirava. Fazia isso apenas por brincadeira, por pura diversão. Talvez este seja o prazer na profissão que não encontramos mais hoje em dia, atolados na preocupação de que tudo o que fazemos precisa ser bom, precisa ser para valer e não há um segundo a se perder com algo de “brincadeira”.
Está na hora não apenas de reencontrar o prazer no que se faz, mas fazer aquilo que nos dá prazer, independente dos fins. Todo mundo quer ser bem sucedido, mas não podemos deixar que isso custe a nossa vida. Ela é muito curta para fazermos apenas o que é preciso, o que nos é dito para fazer naqueles guias de “como alcançar o sucesso”. Faça o que te der na telha e mande o tempo ir catar coquinho na descida. Fazendo direito, seja trabalho ou hobby, você estará evoluindo ainda mais do que trabalhando por obrigação.
Ótima reflexão Rafael. A busca de um sentido maior no trabalho do que a simples obrigação talvez seja a melhor explicação para fenômenos como a Wikipedia, onde milhares de pessoas trabalham de graça e criando uma enciclopédia digital mais completa do que a desenvolvida com redatores pagos. Por outro lado, a facilidade do digital em se criar e distribuir conteúdo (seja texto, imagem, vídeo ou música) também está criando uma nova categoria de lixo, a digital. É só pensar em quantas fotografias se fazia quando tinhamos que pagar pelo filme e revelação (alguém lembra disto) e tudo o que clicamos (e armazenamos em algum lugar)hoje. Edição ja!
“Mande o tempo ir catar coquinho na descida”
ótima reflexão man!!
[]s