São, São Paulo, meu amor
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Os repórteres Camilo Vannuchi e Victor Ferreira mudaram para o Centro de São Paulo há mais ou menos um mês. Isso não seria notícia, levando-se em conta o afluxo de todos os tipos de profissionais liberais, jovens e casais de classe média, principalmente, que têm escolhido a região para viver. Passa a ser, pois a mudança dos dois faz parte de um projeto da revista Época São Paulo que vai às bancas neste sábado, dia 29 de maio. A reportagem especial mostrará como foi essa experiência dos dois e discutir o que há de bom e o que ainda precisa ser feito na região de nascimento da capital paulista.
Além da reportagem no veículo impresso, o projeto incluiu um blog, o CentroAvante, utilizado para relatar o dia-a-dia dos repórteres-moradores do Centro. Também surgiram notícias nos twitters pessoais dos dois e no perfil @CentroAvanteSP. Nas ferramentas virtuais foi possível ver a primeira vez em que Camilo experimentou o tradicional churrasco grego do centrão e acompanhar a aflição de Victor após quebrar em um empório uma garrafa de Blue Lable, cujo preço pode passar de R$ 1 mil. “A pauta para a revista impressa nasceu antes do blog. Assumi a pauta, por me identificar com ela e ter muito interesse nesse debate (sobre direito à cidade, revitalização, planejamento urbano). Sugeri morarmos um mês no Centro e, imediatamente, o Victor sugeriu que fizéssemos o blog. Foi o toque de Midas, acatado pelos editores após alguma discussão sobre objetivo e formato. Nos mudamos duas semanas depois”, conta Camilo, em conversa por e-mail.
Com a revista na banca, ainda é incerta a vida do blog, que pode simplesmente desaparecer (levando-se em conta que os repórteres também vão deixar de morar na região). Entretanto, para Victor, um papel já foi cumprido, o de tentar mudar a visão dos paulistanos sobre o centro de São Paulo. “Quero ver o dia em que as pessoas não se lembrem daqui apenas para comprar atestado médico, vender bilhete único, comprar bugiganga, produtos falsificados, contrabandeado ou sem nota, mas pela tradição, pela arquitetura, pelos bares clássicos. Prefiro esse Centro ao da trambicagem e da insegurança”, diz.
Essa visão de estranhamento com o Centro, ou a visão de um lugar distante e fora do cotidiano, ficou clara logo em um dos primeiros posts do blog, quando um dos repórteres reproduzia o questionamento de uma amiga, espantada: “mas por que morar no Centro?”. “Não dá para reduzir a culpa disso a um único aspecto. Mas dá para arriscar alguns. O fato de uma parcela da nossa sociedade, especialmente nos estratos mais altos, ser incapaz de viver com a diferença, com a diversidade, contribuiu para que o eixo das grandes empresas, dos grandes bancos, dos casarões e do entretenimento se afastasse gradativamente dali”, diz Camilo.
Mas, por outro lado, enviar duas pessoas para morar no Centro, em uma espécie de “expedição”, não reforça essa imagem? “Não dar a entender que o Centro é algo alienígena foi nossa primeira preocupação. Uma amiga me disse: ‘Ah, mas tem um monte de jornalista que mora no Centro’, quase desqualificando a nossa ideia. Mas o que nós queríamos não era viver uma realidade extrema e passar um recado do tipo: ‘olha, a gente topou vir morar no Centro e contamos como é para você que jamais teria coragem de fazê-lo’. O que a gente quis é viver o dia-a-dia do Centro, bater perna por aqui, para descobrir personagens, histórias e lugares que até quem mora aqui às vezes desconhece”, diz Victor.
O resultado desta experiência você pode conferir nas bancas a partir da sábado, no blog e Twitter do projeto. Como ambos são “falantes”, principalmente o Camilo, decidimos reproduzir a íntegra das respostas dadas ao nosso blog, abaixo. Leia e, quem sabe, se você estiver em São Paulo, guarde um tempo do seu próximo final de semana para ir buscar a revista em uma banca da Sé, ou lê-la em um café na Roosevelt ou na São João. Podem ser bons inícios para retomar uma cidade que, mesmo não parecendo, é sua.
A imagem que abre este post foi feita pelo editor deste blog, na Santa Cecília, onde mora há dois anos, após ter morado um curto tempo no Bom Retiro. Mais no 2.8 Estúdio.
PS: após a publicação deste post, Camilo avisou que, mesmo com a saída deles do Centro, o blog continuará na ativa.
XComunicação: Qual a “relação geográfica” de vocês com a cidade (onde nasceram, onde passaram a maior parte da vida, onde moram hoje…)?
Camilo - Nasci em São Paulo, na Maternidade São Paulo e torço para o São Paulo. Ah, o nome do meu pai também é Paulo. Vivi minha vida inteira na Zona Oeste, em três bairros vizinhos: Perdizes, Sumaré e Pompéia (onde moro há nove anos, na Rua Caraíbas). Tenho 30. Sou casado há seis. Jornalista há dez.
Victor – Eu nasci em Camanducaia, no sul de Minas. Vivi lá até os 17 anos e vim pra São Paulo estudar e tentar ganhar a vida fazendo jornalismo. A primeira vez em que vim sozinho pra cá, antes de me mudar de vez, fiquei hospedado na região da Sé porque queria ver o musical O Fantasma da Ópera no Teatro Abril, que também fica por ali. Quando vim para São Paulo de vez, tirava os finais de semana para passear pelo Centro Velho, assistir à missa no Mosteiro de São Bento, conhecer a Catedral da Sé, os grandes prédios do Ramos de Azevedo e outros. O Centro sempre me fascinou. Tenho muitos amigos paulistanos que não conheciam lugares que eu adorava ir. Minha primeira namorada aqui em São Paulo era paulistana, mas conheceu a região do Pátio do Colégio, da Bovespa e do Mosteiro comigo. O fato de as pessoas não conhecerem direito o Centro sempre me intrigou (e ao Camilo também, acredito) e, de certa forma, contribuiu para encontrarmos o tom do blog, que não fosse uma coisa meio exótica, que desrespeitasse quem já mora aqui, e que também não fosse uma coisa muito óbvia. Não sei se estamos conseguindo, mas estamos tentando.
XComunicação: Qual a primeira lembrança que têm do Centro e qual a relação espontânea que têm com ele (como interagiam com a região antes do projeto CentroAvante)?
Camilo - Ia muito ao Centro quando era criança. Minha mãe, Maria Lúcia, é arquiteta aposentada e trabalhou por mais de vinte anos na mesma empresa, uma fundação que se chamava Conesp e mudou de nome para FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação) no início dos anos 1990. É responsável por planejar e construir as escolas estaduais. A primeira sede ficava na São João e, mais tarde, na General Jardim, primeiro quarteirão, vizinho ao local onde agora fica o Bar B. Às vezes eu ia visitá-la no trabalho. E era sempre no Centro que fazíamos compras e programas culturais. Minha mãe não dirigia, e morávamos apenas ela e eu, de modo que raramente íamos a shoppings. Nosso shopping era a Barão de Itapetininga, a 24 de Maio, o Mappin que ficava em frente ao Teatro Municipal. Nossos cinemas eram o Comodoro (já falecido), o Ipiranga (idem), o Spacial (ibidem) e o Marabá (ressuscitado no ano passado). Com meu pai, lembro de ir, ainda pequeno, ao Bar Amigo Leal, na Amaral Gurgel – onde também frequentei uns velhos fliperamas, que já desapareceram. E, finalmente, teve a Galeria do Rock, onde eu ia todo mês com os amigos entre os 14 e os 15 (camisetas e discos não oficiais do Iron Maiden, do Metallica e do Raul Seixas foram adquiridos ali entre 1993 e 1994). De alguns anos para cá, eu praticamente só ia ao centro quando tinha de fazer alguma entrevista na região. Fiz várias, como continuo fazendo, mesmo porque muitas secretarias municipais ficam por ali. Apenas para a Época São Paulo, contei os bastidores de um ensaio da OSESP na Sala São Paulo, apresentei a reforma no Teatro Municipal, fiz uma reportagem toda em PB sobre a antiga Cinelândia… lembro que para nossa primeira edição, em maio de 2008, andei todo o Centro Velho (o triângulo formado pelos largos São Francisco, São Bento e Praça da Sé) para criar um roteiro intitulado “Vá a pé”, desde então uma seção fixa na revista. Sem ser a trabalho, em uma ou outra ocasião frequentei o Bar da Dona Onça, na Av. Ipiranga, e compareci a exposições na Pinacoteca e no Memorial da Resistência (uma bela transformação no antigo Dops). Também fui comprar equipamento fotográfico na Conselheiro Crispiniano e procurar algum livro raro em sebos. Ah, sim, o sindicato dos jornalistas também fica no Centro e estive lá em duas ou três ocasiões.
Victor - Minha primeira lembrança do Centro é a Catedral da Sé e a minha ingenuidade em tirar a câmera fotográfica, deixar a mala no chão e me afastar um pouco para fotografar, tranquilamente. Um paulistano diria que sou louco e não tenho noção do perigo. Não tinha mesmo, confesso. Hoje eu teria tido mais cautela. A minha relação espontânea com o Centro é de fim de semana. Muita coisa eu conheci por conta do blog, já que é nossa obrigação passar o dia todo andando por aqui. Mas no dia a dia, trabalhando numa redação que fica no Jaguaré (quase em Osasco), fica difícil vir para o Centro. Então minha relação é mais ou menos como a de outras pessoas que não moram aqui mas gostam do Centro: Bar Brahma, Cine Marabá, algumas das galerias, Mosteiro.
XComunicação: Algum de vocês moraria no centro? Onde?
Camilo - Eu moraria nesse pedaço que a gente está: finalzinho da Consolação, finalzinho da Ipiranga, Avenida São Luís (em todos os seus estupendos 300 metros), Praça Roosevelt e Praça da República. Isso sem contar a Rua Avanhandava, que é linda.
Victor - Eu moraria tranquilamente aqui nesta região em que estamos, no comecinho da Consolação, na São Luís ou na Ipiranga, em alguns dos prédios legais da Major Sertório e da General Jardim. Na Duque de Caxias eu vi um prédio que me chamou a atenção, é um condomínio chamado Novo Centro. Moraria lá também.
XComunicação:Como surgiu a ideia do projeto e como vocês foram escolhidos para ele?
Camilo - A pauta para a revista impressa nasceu antes do blog. Escreveremos sobre o Centro para a nossa próxima edição, que estará nas bancas em 29 de maio. Assumi a pauta, por me identificar com ela e ter muito interesse nesse debate (sobre direito à cidade, revitalização, planejamento urbano), e sugeri que o Victor entrasse no projeto comigo. Apesar de não parecer, ele é estagiário aqui. E, além do excelente texto e do rigor jornalístico, se interessa por diversos assuntos que envolvem administração municipal, urbanismo, segurança. Sugeri morarmos um mês no Centro e, imediatamente, o Victor sugeriu que fizéssemos o blog. Foi o toque de Midas, acatado pelos editores após alguma discussão sobre objetivo e formato, e nos mudamos duas semanas depois.
XComunicação: Qual o principal objetivo do blog? Deve haver desdobramentos desse trabalho?
Camilo - Olha, ainda não temos muita certeza sobre o futuro. Como nos mudaríamos para cá para fazer a reportagem impressa (o que imaginávamos ser uma maneira de sentir com mais propriedade a dor e a delícia de morar no Centro, além de nos permitir ficar 24 horas por aqui, numa espécie de mergulho de apuração), o blog nasceu como uma forma de registrar nossas experiências, como uma espécie de diário, que alimentará nosso texto final. Além disso, desconfiávamos que receberíamos muitas dicas legais no blog, o que de fato tem acontecido. Finalmente, pensávamos que ele funcionaria como um aperitivo, chamando mais gente para ler a revista quando ela sair. Acontece que o blog pegou. E nosso Twitter também. Estamos no ar há apenas dez dias e, sem combinar nada com antecedência, tivemos duas inserções na CBN, chamadas no G1 (o portal) e garantimos um lugar fixo no site da Época São Paulo.
Provavelmente, não tínhamos a dimensão de que o projeto seria tão bem aceito, de que nossos relatos sobre moradores de rua e “nóias” gerariam tamanha polêmica nos comentários, e de que tanta gente se mostraria tão satisfeita com o fato de dedicarmos esse olhar atento para o Centro, cuidando para que nossa visão não saia estereotipada ou míope. É o Centro múltiplo que nos interessa, com sua beleza e sua feiúra, suas construções e suas ruínas, as facilidades que nos atraem e os problemas que nos repelem. Hoje, tenho um desejo sincero de que o blog se mantenha para além dos 30 dias para os quais foi pensado. Mas ainda é cedo para dizer. Precisaríamos de anunciantes, acredito, e de uma nova configuração de trabalho para manter a “sucursal” operando.
Victor – Aqui o que eu posso acrescentar é que, para mim, o principal objetivo do blog é transformar a relação do paulistano com o Centro da cidade. Quero ver o dia em que as pessoas não se lembrem do Centro para comprar atestado médico, vender bilhete único, comprar bugiganga, produtos falsificados, contrabandeado ou sem nota, mas lembrem daqui pela tradição, pela arquitetura, pelos bares clássicos. Prefiro esse Centro ao da trambicagem e da insegurança.
XComunicação: Muitos posts, inclusive o primeiro, mostram um pouco da perplexidade das pessoas com a ideia de vocês irem viver no Centro. Qual o motivo disso na opinião de vocês? Por que parte da população de São Paulo se afastou do Centro e acha estranho, para dizer o mínimo, alguém morar na região?
Camilo - O curioso é que muita gente mora na região, inclusive jornalistas. Ocorre que o Centro perdeu, gradativamente, relevância para os paulistanos de classe média-alta, que possivelmente são o grosso do nosso público, dos nossos leitores. E a palavra Centro, de alguma forma, virou um sinônimo para crack, morador de rua, travesti e prostituição. E pobreza, sujeira, imóveis deteriorados, marginalidade, enfim. Não dá para reduzir a culpa disso a um único aspecto. Mas dá para arriscar alguns. O fato de uma parcela da nossa sociedade, especialmente nos estratos mais altos, ser incapaz de viver com a diferença, com a diversidade, contribuiu para que o eixo das grandes empresas, dos grandes bancos, dos casarões e do entretenimento se afastasse gradativamente dali, primeiro para o eixo da Paulista, depois para a Faria Lima, agora para a Berrini, e logo mais estarão se concentrando na região do Shopping Cidade Jardim (isso sem mencionar os famosos condomínios de Barueri). A cidade abandonada foi ocupada por quem dava real valor a um pedaço da cidade no qual o automóvel é desnecessário (um problema, aliás, pela falta de estacionamentos), e próximo ao mercado, ao comércio popular, aos principais eixos de transporte coletivo. Com isso, de certa forma, uma parte importante da cidade virou as costas para o Centro, prescindindo completamente de transitar por ali. Os grandes eixos viários desenvolvidos nos anos 1960 e 1970, incluindo, em direção ao Sul, o Minhocão, criou também uma muralha, que hoje serve como referência de limite para o que chamamos de Centro (entendido aqui não como região central, que engloba toda a Bela Vista, até a Paulista, e toda a Aclimação, mas aquele pedaço primeiro, formado pelos bairros Sé, República e Luz, basicamente). Muita gente desce por Higienópolis até Santa Cecília, mas não ultrapassa a Amaral Gurgel. Desce o Bixiga até a Rui Barbosa e pronto. Trafega-se pela Radial Leste, por aquelas avenidas suspensas, sem jamais circular pelo entorno. E, quando se pensa em recuperar o Centro, isso não é jamais uma necessidade, porque não há mais a “necessidade” de se ir ao Centro. Fecha-se os olhos, vira-se as costas e pronto. Os mais novos começam a assumir essa meta da transformação, porque ficam putos de viver numa cidade na qual seus pais repelem a idéia de sua ida ao Centro. Eles passeiam pelo Centro de Barcelona e não conhecem o Centro de São Paulo. E só aos poucos a apropriação acontece. Sabe aquela história da Tostines, se vende mais porque está sempre fresquinho ou está sempre fresquinho porque vende mais? No Centro, vivemos um momento assim. Essa população de maior poder aquisitivo espera acontecerem algumas melhorias no bairro, e a inauguração de mais restaurantes, cafés, bares, padarias, lojas, cinemas e academias ali para cogitar a possibilidade de voltar a frequentá-lo ou a morar nele. E a iniciativa privada espera haver mais moradores e frequentadores ali para instalar restaurantes, cafés, bares, padarias, lojas, cinemas e academias.
Victor - Acabei respondendo um pouco essa pergunta na resposta anterior. O Centro virou o lugar da picaretagem para muita gente (há exceções, claro, não quero generalizar!), e isso o transformou na região que as pessoas só vão quando realmente precisam. Turismo, passeio e lazer são em outras regiões da cidade. Na medida em que o Centro foi perdendo importância para seus habitantes mais abastados, como bancos, grandes escritórios de advocacia (ainda há vários, diga-se), sedes de empresas, o desgaste foi aumentando, a atenção dos Poderes Públicos diminuiu e virou o que é hoje.
XComunicação: A intenção do projeto é muito boa, mas, por outro lado, não reforça essa ideia de que o Centro é algo “alienígena”? Projetos nos quais um jornalista se dispõe a viver uma realidade normalmente estão ligados a experiências extremas (viver como morador de rua, embarcar em um pesqueiro). Viver no Centro é uma experiência extrema?
Camilo - Eu confesso que a gente teve essa mesma preocupação no início. E ainda tem, na verdade. Só que uma coisa que eu aprendi em dez anos de jornalismo é que a gente vai estar sempre contando para uma parte da sociedade o que outra parte está fazendo. Os moradores de rua levam uma vida absolutamente prosaica na opinião dos… moradores de rua. A vida em um pesqueiro não tem nada de mais para quem trabalha nisso. Quando estudantes vêm até a redação para conhecer como funciona uma revista por dentro, nós jornalistas sabemos que as perguntas nos parecerão gozadas. É assim mesmo. Agora, cabe à equipe de reportagem do blog cuidar para que o nosso retrato do Centro não seja feito com exotismo. Normalmente, quem sente essa pegada de realidade extrema que você menciona são algumas pessoas que vivem numa rotina e num universo completamente diferentes disso aqui. Para mim, não tem nada de extremo ou de exótico. Para outro, pode ter. Na semana passada, comi um churrasco grego e coloquei isso em um post. Foi mais ou menos, para mim, como ir a Salvador e provar um acarajé. Ou um pato no tucupi em Belém. Isso é turismo, focado em algo que a gente só encontra no Centro. Para alguns leitores do blog, pareceu uma experiência tão extrema quando comer gafanhoto na China. Mas pergunta pra um chinês se comer gafanhoto é extremo. Não é. Pelo menos não para todos. O que eu posso te dizer é que não vamos ser apelativos ou apresentar bizarrices em nosso blog. Mas queremos, sim, desmistificar algumas coisas, apresentar o exemplo de gente legal que se mudou para lá e que está agitando o bairro em nome de sua recuperação, contar que um dos melhores chopes da cidade está na Cracolândia, esse tipo de coisa. O recado é simples: quem ama cuida. Venham olhar com mais carinho para o nosso Centro e o adotem. São Paulo precisa disso.
Victor – Disse algo numa resposta lá em cima que acho mais apropriado para cá: “O fato de as pessoas não conhecerem direito o Centro sempre me intrigou (e ao Camilo também, acredito) e, de certa forma, contribuiu para encontrarmos o tom do blog, que não fosse uma coisa meio exótica, que desrespeitasse quem já mora aqui, e que também não fosse uma coisa muito óbvia. Não sei se estamos conseguindo, mas estamos tentando”. Não dar a entender que o Centro é algo alienígena foi nossa primeira preocupação. Uma amiga me disse: “Ah, mas tem um monte de jornalista que mora no Centro”, quase de desqualificando a nossa ideia. Mas o que nós queríamos não era viver uma realidade extrema e passar um recado do tipo: “olha, a gente topou vir morar no Centro e contamos como é pra você que jamais teria coragem de fazê-lo”. O que a gente quis é viver o dia a dia do Centro, bater perna por aqui, para descobrir personagens, histórias e lugares que até quem mora aqui às vezes desconhece. É como o Camilo disse: “quem ama cuida”. Se esse blog tem alguma coisa extrema, é o carinho pelo Centro e o desejo de que os paulistanos tenham orgulho e cuidem desta região, ainda que não venham morar aqui.
XComunicação: Há uma série de projetos de revitalização e renovação do Centro. Vocês acreditam que estas ações conseguirão ser efetivas? Pessoalmente, qual seria a ação mais efetiva para “salvar” o Centro da cidade?
Camilo - Eu sou otimista. É uma escolha minha confiar nos projetos e me portar como um entusiasta. Tenho aflição de quem torce o nariz para tudo e, em vez de ajudar, parece fazer anti-propaganda. Torce contra, sabe? Eu não tenho a receita, é claro. O que eu sinto é que todo projeto de revitalização que se pense deve levar em consideração a diversidade. Se os prédios vazios forem desapropriados e convertidos unicamente em moradia popular, teremos um problema, porque amplificaremos a situação de gueto, o empobrecimento do bairro e, consequentemente, o descaso. O inverso também é maléfico. Transformar um pedaço do Centro em um condomínio residencial para ricos vai repetir o maior problema desta cidade, que é a expulsão histórica dos trabalhadores para bairros periféricos onde não há trabalho. O resultado mais evidente disso é o movimento pendular Centro-periferia, que a massa faz diariamente para trabalhar e que torna cada vez piores os nossos congestionamentos. Você me pergunta o que seria mais efetivo. Incentivos fiscais para atrair novamente empresas ao Centro e também para incentivar os proprietários dos imóveis a recuperar fachadas pode ajudar. Uma política consistente de assistência social e saúde que minimizasse o problema dos moradores de rua e dos usuários de crack, sem violência e sem simplesmente varrê-los para outros bairros, também. Calçamento adequado e compromisso com o recolhimento do lixo, bem como zeladoria do patrimônio arquitetônico e artístico, também seriam boas ações. E maior oferta de garagens. Sinceramente, o que eu acho mais louvável, até agora, tem sido a iniciativa de gente visionária que ousou assumir um papel protagônico nesse processo. Em vez de esperar o poder público vir com a solução, há quem acredite no Centro e tenha investido dinheiro para devolver um cinema à cidade, ou um bar. Estes são os imprescindíveis. Talvez esteja na hora de iniciarmos um novo processo colonizador, no sentido de dar um passo à frente da comodidade. E sermos, cada um de nós, pessoas físicas e jurídicas, pioneiros nessa “re-adoção” do Centro.
Victor - Eu acho que toda ação que tenha começo, meio e, principalmente, fim, ajuda a revitalizar o Centro. A reforma da Praça Roosevelt, o projeto da Nova Luz são extremamente positivos. O problema é sair do papel. Fala-se na reforma da Roosevelt, por exemplo, há anos – e até agora só ocorreram algumas medidas paliativas (que também são positivas, diga-se).