Tarantino é bom quando assume ser péssimo diretor

Postado por Rodrigo Dionisio, quinta-feira 15 julho 2010 as 14:13

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Crítica - À Prova de Morte

Por Rodrigo Dionisio*

O melhor filme de Quentin Tarantino sequer era um filme. “À Prova de Morte”, com estreia amanhã em circuito comercial, fazia parte do projeto GrindHouse, parceria com Robert Rodriguez. Eram dois filmes, este e Planeta Terror, dirigido pelo compadre de Quentin, exibidos juntos como uma coisa só, em 180 minutos. Isso pode parecer apenas uma curiosidade cinéfila, mas faz parte de um argumento. Fato, Tarantino é muito melhor quando menos se leva a sério. A estreia de amanhã é tão bobagem que foi lançada em 2007 e só agora chega aqui, depois de “Bastardos Inglórios”, de 2009.

Declaro, tenho uma relação de amor e ódio com o diretor de “Cães de Aluguel”. Este, seu filme de estreia, é genial. Assim como “Jackie Brown”. Acho “Pulp Fiction” superestimado, “Kill Bill”, descartável e “Bastardos Inglórios”, duvidoso (tem coisas bem boas, mas a mão pesada em algumas cenas e o roteiro sem noção estragam o todo). “À Prova de Morte” não tem história, mal dá para chamar sua construção de roteiro. O personagem principal, Kurt Russel, é privado de motivação palpável. O longa investe em diálogos descartáveis e chulos (deve ser o filme com a maior quantidade da palavra “ass” em toda a história do cinema, incluindo as produções pornográficas). Faz menções à toda filmografia de Tarantino, de “Cães” a “Kill Bill” (só não cita “Bastardos” porque é anterior), chegando a recriar cenas com outros sentidos. Sobra até brincadeira com “Um Drink no Inferno”, que Rodriguez dirigiu e no qual Quentin atuou.

Ou seja, é tão ruim que é fantástico. Na sessão em que assisti ao filme, foi aplaudido pela plateia. OK. Nunca confie no público médio de cinema. Mas foi merecido. Para variar, leia o que vem sendo e vai ser publicado. A crítica tenta achar significados na produção (assim como insiste que a noiva de “Kill Bill” é uma mulher forte contra ´homens maus´… repare, entre seus alvos, há dois homens: um a enterra viva e o outro caminha para a morte com ar de vitória, enquanto ela se debulha em lágrimas). Mas não há sentido em “À Prova de Morte”. São duas sequências longas de diálogos com cenas de ultraviolência ao final. Se tiver estômago forte e não se importar em estragar uma das partes do filme, clique no vídeo ao final deste post e terá uma ideia.

Falei de amor e ódio e só destilei o segundo. Tarantino sem querer está em momentos interessantes da minha vida. A última vez que fui ao cine São Geraldo, na Penha, antes de ele virar estacionamento, foi para ver “Pulp Fiction”. O primeiro beijo no meu grande amor de faculdade (quem não teve o seu?) foi após uma sessão de “Um Drink no Inferno”. Também admiro sua declarada e insistente paixão e reverência pelo cinema, pela poesia besta do banal. Entretanto, me irrita um tanto quando ele declara, sério (e é levado a sério), que a viagem de carro da noiva em “Kill Bill” é comparável à trajetória rio acima do Capitão Willard, de “Apocalipse Now”.

Cinefilia crônica e irritada, eu sei. Mas creio que este texto todo se resume a uma declaração. Adorava detestar os filmes mais recentes de Tarantino. Principalmente por ele imitar muito e criar pouco. Fiz as pazes, me entreguei, pois ele simplesmente decidiu imitar o diretor de um filme muito, muito ruim. E fez isso de maneira magistral. Ou, como twittou Raphael Gonzalez após eu apresentar o filme a ele: “Tarantino transformou o episódio do Pateta no Trânsito em filme e chamou de Death Proof”.

* Rodrigo Dionisio é editor do blog da XComunicação; jornalista e fotógrafo, posta seus trabalhos em www.28estudio.com.br e centraliza sua vida digital em www.meadiciona.com.br/28estudio

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