VAI ENCARAR?
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O pôquer e suas lições para o mundo corporativo
por Guilhermo Benitez *

Quando estava saindo para o aeroporto, a caminho da edição brasileira do LAPT – Latin American Poker Tour, série de torneios de pôquer promovido pela PokerStars.net, (cliente da XPress) em Florianópolis, o novo diretor de redação da agência, Rodrigo Dionísio, me encomendou um post sobre o evento.
Para tentar um enfoque diferenciado, sugeri colocar no papel uma antiga ideia de tentar trazer para o cotidiano da comunicação e da gestão como um todo conceitos importantes para o pôquer. Quanto mais aprendo sobre este jogo de estratégia, simples apenas em sua aparência, mais percebo que sua prática pode ser importante para quem quer melhorar uma série de características importantes no mundo corporativo.
Quem já viu um jogo profissional ou jogou um pouco, seja ao vivo com amigos seja na internet, vai entender bem do que estamos falando. Quem nunca jogou, bem, vou tentar ser didático. Para tanto, conto com a consultoria e apoio do jornalista Bruno Nóbrega, editor e Publisher da Card Player Brasil, uma das principais publicações dedicadas ao jogo no país.
Paciência – Matthias Habernig, campeão do torneio aqui em Florianópolis, ficou pelo menos 35 horas dos últimos quatro dias sentado, enquanto recebia cerca de 1.400 mãos. A maioria das vezes (em média 90% delas) ele simplesmente jogou fora as cartas que recebeu. Esta é a lógica do jogo. Os mais ansiosos, que querem sair decidindo tudo na hora, normalmente são os primeiros a serem eliminados. Paciência para esperar um bom cenário para fazer seu jogo é regra geral para todas as atividades, inclusive a comunicação.
Competitividade – Ser paciente não significa imobilismo. Ao contrário: quem não se move também sai rápido do jogo. Uma das coisas mais interessantes de um torneio de pôquer é que existem apostas fixas obrigatórias (blinds, no jargão do esporte) que sobem periodicamente. Quanto o torneio começa, todos têm a mesma quantidade de fichas. Se o jogador não age para aumentar suas fichas (stack) vai, naturalmente, ser eliminado. Além disso, quanto menor o stack, menor sua possibilidade de arriscar jogadas mais ousadas ou de pressionar o adversário. Quem tem mais fichas está em vantagem em relação aos demais. Enfim, o equilíbrio entre a paciência e a competitividade é base para o vencedor, seja no pôquer ou em uma negociação.
Decisões com informações limitadas – Esta é a graça do pôquer, especialmente o Texas Hold´em. O jogador sabe as cartas que tem na mão e, se achar que deve jogar com elas, fará uma combinação entre estas e as cartas comunitárias, que serão abertas na mesa e servirão para todos ainda na disputa (em alguns casos, a mão é decidida antes mesmo de as cartas comunitárias serem viradas). A partir disso, o jogador saberá chances que tem de ganhar. É preciso estar atento ainda quantas fichas tem no seu stack, para investir ou não numa jogada, e quanto seus adversários possuem. Entretanto, não há como saber o que os concorrentes têm em mãos – informação crucial para definir se vai ou não ganhar aquela disputa. Mesmo assim, é preciso tomar uma decisão, seja de desistir da rodada (e talvez perder uma chance de aumentar seu stack) ou investir (e quem sabe perder parte considerável de suas fichas). Encruzilhadas como esta se repetem todo o tempo na vida corporativa. Lançar ou não um produto? Qual a melhor estratégia de ação? Os jogadores de pôquer podem indicar alguns caminhos.
Posicionamento – A posição do jogador na mesa de pôquer faz toda a diferença. A vantagem de posição é do jogador que estiver no “botão”, que terá o benefício de saber quais foram as ações tomadas pelos concorrentes antes de chegar sua vez de agir. Em outras palavras, o jogador nessa posição tem muito mais informações do que os demais. Por outro lado, quem decidiu antes sabe que, muitas vezes, o último a agir foi para a ação mais por sentir que tinha poucos oponentes do que pela força de suas cartas. A dica aqui é sempre entender a sua posição e a dos demais jogadores em cada situação, como esta posição influencia suas decisões e – o mais difícil – construir sua própria estratégia a partir deste posicionamento geral.
Leitura do oponente – Os maiores jogadores de pôquer do mundo garantem: profissionais não tomam decisões somente com base nas cartas que têm ou daquelas abertas na mesa – eles jogam em função do oponente. É preciso saber como ele costuma agir, qual seu padrão, como reage a cada situação, quais seus interesses e motivações. A partir disso, é possível assumir o controle do jogo e levar o adversário a tomar as decisões que você quer. Por exemplo, fazer com que ele acredite que você tem uma mão fraca para que ele invista mais numa jogada, de modo que, ao final, caso sua mão se confirme como a melhor, você levante mais fichas. Ou, inversamente, fazer com que ele acredite que você tem uma mão muito boa e desista da jogada, deixando todas as fichas para você, o famoso blefe. Para isto, os jogadores passam boa parte do jogo analisando seus concorrentes, entendendo suas atitudes e, com isto, ampliando seu portfólio de informações para a tomada da decisão.
Antecipando o futuro – Num nível mais elevado, os jogadores não apenas tentam “ler” o que seu oponente vai fazer em cada situação, mas também antever os movimentos dele. Imagine que você esteja na mesa e seja um profissional. Você precisa identificar o que o oponente está pensando de você. Mais que isso: precisa ler o que ele pensa que você está pensando dele. Ao chegar a este nível, você começa a antecipar as ações de seu adversário.
Imprevisibilidade – Bom, se você pode ler seus concorrentes, eles também podem ler suas atitudes, certo? Claro que sim. Os profissionais evitam isso mudando com frequência seu padrão de jogo. Mais importante do que esconder suas informações e motivações (jogadores de pôquer costumam usar óculos escuros, capuzes e até cachecóis para esconder suas reações na mesa) é tornar seu jogo imprevisível. Se blefar sempre, ninguém mais acreditará em você. Se só jogar quando tiver boas mãos, todos fugirão de você, que desperdiçará grandes cartas levantando poucas fichas.
Cenário presente e futuro – Um torneio de pôquer tem fases distintas. No começo, muitos jogadores podem querer aumentar logo seu stack, para ficar numa situação mais confortável no jogo, o que lhes permite ousar mais. Normalmente, o torneio oferece prêmios aos 10% mais bem colocados. Então, quando se aproxima o momento de fechar esta lista dos que serão premiados, muitos jogam de forma mais defensiva – ninguém quer se arriscar a morrer na praia. Estes cenários e seus reflexos sobre os seus oponentes devem ser seriamente considerados na tomada de decisão. Muitos jogadores, por exemplo, aproveitam os momentos em que todos estão mais conservadores para agir de forma agressiva, sabendo que a maioria dos concorrentes não está disposta a ficar de mãos abanando depois de tanto esforço.
Fatores externos – Muita gente ainda acha que o pôquer é um jogo de azar. Pensam, afinal, que é preciso sorte para ter as melhores cartas. Existem vários estudos que comprovam que isso não é verdade, pelo menos no longo prazo. Pensando matematicamente, é possível ter muita sorte um dia e muito azar no outro. A tendência natural é de que, ao longo do tempo, as cartas sejam distribuídas de maneira equivalente entre todos: a diferença está na habilidade de cada um. No longo prazo, quem souber aproveitar melhor as boas oportunidades e se defender nas situações difíceis, vai ter melhores resultados. Simples assim. Mais importante do que ter sorte ou azar é saber agir em cada situação. Você não controla os fatores externos, mas pode controlar sua reação a eles, maximizando os ganhos e minimizando as perdas.
Foco no longo prazo – Diante disso, levando em conta que a “sorte” vai e vem e a habilidade é o que vale, a estratégia deve ser orientada para o longo prazo, sem deixar de lado táticas específicas para situações de curto e médio prazo. O importante é não se abater nem perder o foco por conta de momentos ruins.
Análise de risco – A matemática tem um papel importante no pôquer. O bom jogador avalia qual a chance que tem de vencer determinada mão, o valor que tem para investir (seu stack) e o montante das fichas que pode ganhar (pote). A partir desta avaliação é que as apostas devem ser feitas, buscando sempre ter o melhor retorno possível em cada mão. Obviamente, se o jogador seguir esta regra sempre à risca, ele se torna previsível, e a partir do seu padrão de apostas passa a ser possível fazer uma estimativa (às vezes bastante precisa) de quais cartas ele tem.
Complexidade – Ai é que entra a sutileza do pôquer: você analisa o risco e define qual a aposta mais adequada para cada situação. Para tanto, deve considerar o momento do torneio, a leitura dos concorrentes e a estratégia de jogo. Sim, trata-se de analisar uma grande quantidade de variáveis – algumas lógicas, outras de pura percepção – num curto período de tempo. Numa fase em que todos os gurus corporativos falam da necessidade de termos executivos preparados para lidar com a complexidade crescente do ambiente de negócios, o pôquer se torna uma escola e tanto. E você, vai encarar?
* Guilhermo Benitez é diretor associado da XPress Comunicação
Exelente comparativa! Que além de se aplicar no mundo dos negócios (que muito competitivo)é uma base sólida e eficiente em processos de seleção.
Parabéns!
E o blefe doutor Guilhermo??? O blefe é a enroladinha no cliente hehehehe
Que bela comparação. Vou salvar este texto para usar em algum ppt um dia
Abraços
Mateus
@ocappuccino