Vai um abraço?
Esse post foi lido 626 vezes até agora!
Crítica – O Abraço Corporativo
Por Rodrigo Dionisio*
Não lembro mais há quanto tempo, costumava fazer uma sugestão, em tom de piada, a amigos aqui da XComunicação: que tal criar um cliente fictício e fazer assessoria de imprensa para ele? Essa seria uma maneira de testar os limites do trabalho que fazemos e as características da produção de notícias em nosso país. Nunca passou de uma brincadeira. Ao menos para mim. O jornalista Ricardo Kauffman, até onde eu saiba, sem ter nenhum contato maior com os profissionais desta agência, levou a ideia adiante.
Entre 2005 e 2006 criou o consultor de RH Ary Itnem, representante no Brasil da Confraria Britânica do Abraço Corporativo. Desenvolveu uma estratégia básica de assessoria de imprensa, oferecendo seu cliente como personagem, pautando a Confraria e, isto sim uma sacada diferenciada para a época, usando mídia social (com um vídeo no Youtube de Itnem abraçando pessoas na avenida Paulista, em São Paulo). Conseguiu como resultado um clipping invejável para um trabalho deste tipo, que incluía algumas das principais emissoras de TV, revistas, jornais e rádios do país.
Kauffman registrou todo esse processo e produziu o documentário “O Abraço Corporativo”, exibido na Mostra Internacional de Cinema do ano passado e, a partir de hoje, em circuito comercial (veja onde está sendo exibido aqui ou confira a programação de hoje). Como cinema, o filme não traz nada de novo, segue um padrão quadrado de depoimentos e trechos das ações promovidas com Itnem. O importante em “O Abraço” é mesmo a discussão proposta, aquilo que faz da obra algo fundamental para quem trabalha com comunicação. O jornal Brasil Econômico, na edição do último dia 05, definiu em manchete o filme como “Um belo tapa na nossa cara” (leia reportagem aqui)
E esta não é a única frase forte relacionada à produção. Nem vale esperar que o filme seja um passeio divertido para assessores e outros atores da comunicação refinarem rancores contra nossos colegas da Redação. Em um dos depoimentos mais contundentes do documentário, o jornalista Manuel Chaparro fala sobre a constituição das assessorias de imprensa e o uso deste tipo de serviço pelas empresas. Diz algo mais ou menos assim: se a empresa não tem notícia, se não faz nada relevante, pague por anúncio. O “tapa na cara”, portanto, é generalizado.
A partir daí, uma conclusão óbvia seria que o sistema de produção de notícia nacional apodreceu. Foi cercado por factóides, a notícia transformada em espetáculo, os interesses marqueteiros de clientes e assessorias dominam o cenário. Óbvio e apressado pensar isso. “O Abraço Corporativo”, como escrevi antes, é fundamental. Por mostrar, sim, esta ferida e por nos obrigar a pensar qual nosso papel. E para revelar que possibilidades novas, como as mídias sociais, o contato direto das empresas com clientes via canais democráticos e uma comunicação profissional, ética e relevante são o único antídoto contra este mal.
Algumas sequências do filme dão verdadeiro frio na espinha em qualquer profissional de comunicação. São nossas entranhas ali expostas. E, pior, como afirma a reportagem do Brasil Econômico, fica claro como é frágil o mundo corporativo, feito muitas vezes de discursos prontos e, acrescento, gurus a serem seguidos. Mas depois de ver a pré-estreia no último dia 12, saí com este texto na cabeça e um pensamento otimista, apesar de tudo. Estamos em um momento de mudança da nossa profissão. É hora de encontrar um caminho diferente, sem jogar fora o que já foi feito. Tapas na cara geram rancor, sem dúvida, mas também acordam, chamam para a realidade. É escolher o que vai pesar mais depois de sair do cinema.
* Rodrigo Dionisio é editor do blog da XComunicação; jornalista e fotógrafo, posta seus trabalhos em www.28estudio.com.br e centraliza sua vida digital em www.meadiciona.com.br/28estudio
Muito bom isso